É tempo de carnaval
No momento em que escrevo este texto, já não estou mais em
Pelotas.Sempre fui bairrista,e apesar de ter visto outros carnavais -no Brasil e
fora- jamais deixei de reverenciar nossos folguedos momescos.Além de ter
assistido por diversas vezes ao do Rio de Janeiro ao vivo e em cores
alucinantes,sempre achei que aquilo era coisa de carioca,e jamais teria similar
no resto do pais. Naqueles tempos idos,éramos considerados o 3º do pais,atrás
apenas do Rio -que empolgava o mundo com a inovação do samba-enredo- e de
Recife, com o alucinante ritmo do frevo Vassourinha.Hoje, com a tentativa de se
igualar na padronização globalizada,Pelotas perdeu e muito,e por isso nos
ultimos anos nessa época, vou em busca de um carnaval mais participativo menos
contemplativo.Quem já assistiu carnavais em São Lourenço,Jaguarão,Cassino e
Arroio Grande entre outros menos badalados,mas em cidades interioranas,sabe do
que estou falando.Seguidamente vou a Arroio Grande e volto ao passado parecendo
que estou numa máquina do tempo naquela época dos anos 50,em que as familias
botavam as cadeiras nas calçadas para assistir aos desfiles das escolas e
blocos.Lá como cá sem tirar nem botar...A única exceção é o carnaval de
Uruguaiana,de luxo e bem organizado,até rivalizando em escala menor,com o da
Cidade Maravilhosa.Só vendo pra crer...Por uma questão sócio-econômica,Pelotas
tentou copiar os padrões mercantiliscos,mas sem pompa&circunstancia ficou só na
boa intenção.No Rio as escolas tem quadra própria,fazem eventos para captar
receita durante todo o ano,e ainda agregam o lucro da venda dos sambas-enredos
em CDs.Aqui dependem de verbas fortuitas da administração municipal.No dia em
que alguma autoridade judicial colocar em risco esta dotação orçamentária,babaus folia...Falando nela,em vista de outras drogas pesadas que foram aparecendo
nestes ultimos anos e perturbando a orrdem pública - e algumas quase sendo
indiscriminalizada- já era tempo de se fazer uma reavaliação sobre o uso da
lança-perfume no carnaval.A medida em que ela foi banida no Brasil -por uso
indevido- foi sendo verificada uma decadencia progressiva,sendo extinto
principalmente em cidades interioranas.Por seu cheiro representar a marca do
autentico carnaval,esse foi cada vez mais sendo coisa rara,principalmente o de
rua.Quem não se lembra daqueles desfiles na rua 15 de novembro,onde
brancos,negros,pobres e ricos,disputavam o mesmo espaço para mostrar sua ginga
no samba,seja no calçamento das ruas ou nos salões dos clubes sociais,e quiçá
nos bailes publicos dos teatros 7 de Abril ou Guarany.O corso de carros
alegóricos e os foliões dançando no "redondo"do chafariz da praça Cel.Pedro
Osório,marcaram época na Princesa do Sul.Quando o bloco Aguenta Se Puder -com
instrumentistas de sopro da banda do 9ºRI- adentrava na rua Quinze (em frente ao
Banco da Provincia hoje Itau) os foliões vibravam com as musicas de filmes
transformadas em ritmo de samba.Recordo-me que a do filme "Os vikings"quando
tocada, estremecia os vidros dos predios e as cadeiras e bancos
trepidavam.Lembro que num ano a Coca-Cola patrocinou um pórtico que representava
um palhaço de pernas abertas com uma garrafa do refrigerante na mão,e os blocos
passavam embaixo...! Alguns blocos burlescos em que desfilavam os chamados
"sujos",eram de integrantes travestidos de mulher,inclusive usavam as roupas de
suas esposas e namoradas,que eram quem fazia a maquiagem,com muito gosto.Ainda
sobrevivem a Bruxa da Várzea e a minha predileta Tesoura da Tiradentes.Por
muitos anos,mesmo não residindo em Pelotas nos anos 80 e 90,vinha a Pelotas para
desfilar na Bandalha,que também foi extinta,sendo o ultimo suspiro do carnaval
nos moldes antigos,com os foliões sambando descontraidamente.Pra não dizer que o
carnaval passou em brancas nuvens,no ultimo sábado os integrantes do Programa
Pelotas 13 horas da RU do mestre-sala Clayton,fizeram uma resenha carnavalesca
durante o "Gente que Faz"a pedido do Cabral.Sob a batuta do cantor-sambista
Solon Silva cantarolamos marchinhas como Girafa da Cerquinha,Mamãe Eu
Quero,Máscara Negra,entre outras,finalizando com A Turma do Funiu,quando saimos
porta afora por decurso de tempo,e ávidos de chá de cevada.Na saida ia passando
o Bloco do Museu na esquina do calçadão,integrado por amigos boleiros que jogam
Fut7 na cancha do Bento Freitas,e aderi com meu apito,ajudando na cadencia do
samba.Estamos montando um frentão para reivindicar o desfile dos blocos
burlescos na rua 15 ano que vem,o do bi-centenário de Pelotas.Quem sabe? Por
aqui este ano foi só,mas ainda nem vesti a fantasia...Odaliscas,Pierrots e
Dominós,me aguardem,que ai vou eu.